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De 2016 a 2026: como São Cristóvão mudou seu voto e redesenhou o poder - O Jogo do Poder — Capítulo 2/25

Dez anos de disputas, rompimentos e crescimento nas urnas ajudam a explicar como Marcos Santana, Gedalva, Paulo Júnior e Diego Prado redesenharam o poder em São Cristóvão — e por que 2026 pode mudar novamente esse tabuleiro.

11 de set., 21:55 São Cristóvão 0 leituras

Por Redação O Arroto

De 2016 a 2026: como São Cristóvão mudou seu voto e redesenhou o poder - O Jogo do Poder — Capítulo 2/25
Foto: Redação O Arroto

Em dez anos, Marcos Santana saiu de uma vitória com apenas 30,77% para construir um grupo capaz de eleger sucessor com quase 26 mil votos; Gedalva multiplicou sua votação, rompeu com antigos aliados e agora desafia o mesmo campo que ajudou a eleger em 2024; Paulo Júnior transformou quase 13 mil votos locais em mandato estadual; e Diego Prado saltou da Câmara para mais de 20 mil votos na disputa pela Prefeitura. A história das urnas ajuda a explicar por que 2026 pode redefinir novamente o comando político da Cidade Mãe.

Para entender o que está acontecendo na eleição de 2026 em São Cristóvão, é preciso voltar dez anos.

O mapa político atual da cidade não nasceu agora. Ele começou a ser redesenhado em 2016, sofreu uma profunda transformação em 2020, ganhou dimensão estadual em 2022 e voltou a se reorganizar na sucessão municipal de 2024.

Agora, em 2026, aquelas histórias voltam a se encontrar.

E os números mostram algo que muitas vezes desaparece no discurso político: o eleitor de São Cristóvão mudou bastante — e alguns dos personagens também mudaram de lado.

2016: Marcos vence uma eleição completamente fragmentada

Em 2016, Marcos Santana chegou à Prefeitura numa disputa muito diferente daquela que a cidade vive hoje.

Marcos recebeu 11.968 votos, equivalentes a 30,77% dos válidos. Lauro Rocha ficou em segundo, com 6.985; Betão do Povo teve 6.552; e Gedalva Umbaúba apareceu em quarto, com aproximadamente 5,1 mil votos e 13,25%. Havia oito candidaturas à Prefeitura. (SEnotícias)

Essa fotografia é fundamental.

Marcos não chegou ao poder dominando eleitoralmente São Cristóvão. Ele venceu uma eleição altamente pulverizada, na qual praticamente sete em cada dez votos válidos foram dados a outros candidatos.

O grande feito político viria depois.

2016 → 2020: Marcos quase dobra sua votação

Quatro anos depois, a eleição apresentou uma cidade completamente diferente.

Marcos saltou de 11.968 para 22.248 votos.

Foi um crescimento absoluto de 10.280 votos, aproximadamente 86% sobre sua votação anterior. O percentual passou de 30,77% para 53,62% dos votos válidos. (UOL Notícias)

A reeleição de 2020 é provavelmente o ponto mais importante para compreender a construção do grupo político que governa São Cristóvão atualmente.

O candidato que havia vencido uma disputa fragmentada conseguiu, quatro anos depois, conquistar sozinho a maioria dos votos válidos.

E quem estava do outro lado?

Gedalva.

Ela também cresceu de maneira impressionante.

Depois dos cerca de 5,1 mil votos de 2016, Gedalva chegou a 12.319 votos em 2020, alcançando 29,69% dos válidos. (UOL Notícias)

Portanto, 2020 produziu dois fenômenos simultâneos:

Marcos consolidou sua liderança.

Gedalva consolidou sua existência como força eleitoral própria.

É justamente por isso que o confronto indireto entre os dois em 2026 merece tanta atenção.

Diego Prado aparece na mesma eleição

Enquanto Marcos e Gedalva disputavam a Prefeitura, outro personagem começava a crescer.

Diego Prado foi eleito vereador em 2020 com 1.426 votos, terminando como o candidato a vereador mais votado da cidade. (UOL Notícias)

Quatro anos depois, disputaria a Prefeitura.

Esse salto — de 1.426 votos proporcionais para mais de 20 mil votos majoritários — é uma das maiores mudanças individuais ocorridas no tabuleiro político municipal durante o período analisado.

Voltaremos a ela.

2018 mostra como São Cristóvão votava antes de ter um deputado estadual próprio

Existe outra fotografia importante entre as duas eleições municipais.

Nas eleições gerais de 2018, o candidato a deputado estadual mais votado em São Cristóvão foi Francisco Gualberto, com 2.501 votos, seguido por Gracinha Garcez, com 1.518, e Gilmar Carvalho, com 1.485. (Especiais)

Para deputado federal, Fábio Reis liderou dentro do município com 4.835 votos. Laércio Oliveira teve 3.248 e Fábio Henrique, 2.906. (Especiais)

Observe a diferença.

Em 2018, o campeão local para deputado estadual tinha apenas 2.501 votos.

Quatro anos depois, um candidato diretamente ligado à política municipal conseguiria quase 13 mil.

Essa mudança tem nome.

2022: Paulo Júnior concentra o voto estadual

Paulo Júnior chegou às eleições de 2022 depois de ter sido vereador, presidente da Câmara e vice-prefeito na chapa de Marcos Santana.

O resultado foi expressivo.

Paulo recebeu 27.947 votos em Sergipe, distribuídos pelos 75 municípios, e conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa. (Lagarto Notícias)

Mas o número que realmente interessa para compreender São Cristóvão é outro:

12.968 votos vieram da cidade.

Isso representou aproximadamente 46,4% de toda a votação estadual de Paulo. (apuracoes.com)

Dentro de São Cristóvão, a concentração foi ainda mais impressionante.

Paulo obteve aproximadamente 30% dos votos nominais para deputado estadual, enquanto Neto Batalha, segundo colocado, teve 2.529. (NE Notícias)

Compare:

2018 — estadual mais votado: 2.501 votos.

2022 — Paulo Júnior: 12.968 votos.

Paulo recebeu mais de cinco vezes a votação alcançada pelo líder municipal da eleição estadual anterior.

Foi uma demonstração de que o grupo construído a partir da Prefeitura havia aprendido a concentrar o voto proporcional da cidade em um candidato próprio.

Esse talvez seja um dos maiores ativos políticos que o grupo tentará reproduzir em 2026.

Mas 2022 também revelou outra força: Gedalva

Na mesma eleição, Gedalva concorreu a deputada federal.

Ela recebeu 7.514 votos somente em São Cristóvão. (MeuVoto)

Seu segundo maior resultado foi em Aracaju, com 1.786 votos; depois vieram Nossa Senhora do Socorro, com 504, Muribeca, com 195, e Itaporanga d'Ajuda, com 129. (MeuVoto)

Esses números revelam simultaneamente força e dificuldade.

A força é evidente: Gedalva já provou que consegue receber milhares de votos pessoais em São Cristóvão numa eleição federal.

A dificuldade também: sua candidatura de 2022 era extremamente dependente da cidade.

Essa será uma das perguntas centrais de 2026:

Gedalva conseguirá transformar uma liderança essencialmente municipal em uma candidatura estadualizada?

2024: o grupo de Marcos consegue fazer o sucessor

A eleição municipal seguinte testou algo diferente.

Marcos não poderia disputar novamente a Prefeitura depois de dois mandatos consecutivos.

O escolhido para representar a continuidade foi Júlio Nascimento.

E o próprio nome utilizado na urna explicitava a estratégia:

Júlio de Marcos Santana.

O resultado oficial foi uma vitória com 25.872 votos, equivalentes a 53,74% dos válidos. Diego Prado recebeu 20.802 votos, ou 43,21%. (O Liberal Eleições)

O número possui enorme importância histórica.

Marcos tinha recebido 22.248 votos em sua própria reeleição.

Seu sucessor conseguiu 3.624 votos a mais.

Isso não significa que todos esses votos fossem automaticamente de Marcos. Uma eleição municipal envolve candidato, alianças, avaliação da gestão, adversários e contexto próprio.

Mas demonstra algo objetivo:

o grupo conseguiu realizar uma sucessão eleitoralmente bem-sucedida.

A Prefeitura mudou de titular sem que o agrupamento perdesse o comando do município.

Mas 20.802 votos criaram uma nova oposição

A eleição de 2024 também produziu um segundo vencedor político, apesar da derrota nas urnas.

Diego Prado recebeu 20.802 votos. (O Liberal Eleições)

Compare sua trajetória:

2020 — vereador: 1.426 votos.

2024 — prefeito: 20.802 votos.

É claro que votos para vereador e prefeito não são diretamente comparáveis — as lógicas eleitorais são completamente diferentes.

Mas o salto demonstra que Diego deixou de ser apenas uma liderança legislativa e passou a ocupar um espaço majoritário.

A diferença entre Júlio e Diego foi de 5.070 votos.

Por isso, dizer que a oposição saiu destruída de 2024 seria contrariar os números.

Ela perdeu a Prefeitura.

Mas terminou a eleição com mais de 20 mil votos.

E então aconteceu algo que mudou novamente o tabuleiro

A chapa vencedora de 2024 era formada por Júlio e Gedalva.

Dois anos depois, essa aliança não existe politicamente.

Gedalva tornou público seu rompimento com o agrupamento de Júlio e Marcos em fevereiro de 2026. Segundo sua versão, a relação já estava desgastada e o episódio envolvendo declaração da secretária municipal Paola Santana foi o estopim. (Panorama Sergipe)

Posteriormente, Gedalva declarou apoio à candidatura de Valmir de Francisquinho ao Governo de Sergipe, afastando-se também do projeto estadual defendido pelo grupo governista municipal. (ClickSergipe - O Mundo num só Click)

Isso produz uma situação política curiosa:

a vice-prefeita eleita pelo grupo governista em 2024 chega à eleição de 2026 como adversária política desse mesmo grupo.

E agora disputará votos diretamente com Marcos para deputado federal.

A cidade também ficou eleitoralmente maior

Existe outro elemento frequentemente ignorado nas análises políticas: São Cristóvão ganhou eleitores.

Em 2018 havia 54.289 eleitores registrados no município. (Especiais)

Em 2022 eram 58.637 aptos. (Band)

Em 2024, o eleitorado chegou a aproximadamente 61,6 mil. (Sou de Sergipe)

Agora, para 2026, o TRE-SE registra 62.018 eleitores, mantendo São Cristóvão como o quinto maior colégio eleitoral de Sergipe. (Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe)

Entre 2018 e 2026, portanto, o município acrescentou 7.729 eleitores, crescimento de aproximadamente 14,2%.

E existe um detalhe revelador.

Somente durante o ciclo de regularização eleitoral de 2024, São Cristóvão registrou 1.865 novos alistamentos e 2.660 transferências de títulos, ficando entre os municípios sergipanos com maior movimentação eleitoral. (Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe)

Isso significa que milhares de pessoas que participarão da eleição deste ano não estavam no mesmo eleitorado que produziu o mapa político de 2018.

O voto da cidade está crescendo junto com sua expansão urbana e metropolitana.

A linha do tempo explica 2026

Quando colocamos os principais números lado a lado, o movimento fica muito mais claro:

AnoO que aconteceuNúmero-chave2016Marcos Santana vence a Prefeitura11.968 votos2018Estadual mais votado na cidade é Gualberto2.501 votos2020Marcos é reeleito22.248 votos2020Gedalva fica em segundo para prefeita12.319 votos2020Diego é o vereador mais votado1.426 votos2022Paulo Júnior domina a votação estadual local12.968 votos2022Gedalva lidera entre os federais ligados à cidade7.514 votos2024Júlio vence a sucessão25.872 votos2024Diego consolida oposição majoritária20.802 votos2026São Cristóvão chega ao pleito62.018 eleitores

A tabela mostra que a política municipal passou por três fases.

Primeiro, fragmentação.

Depois, concentração em torno do grupo de Marcos.

Agora, nova fragmentação.

Só que a fragmentação de 2026 é diferente da de 2016.

Hoje existem lideranças com votações próprias já comprovadas.

O que cada personagem precisa provar agora

Paulo precisa demonstrar que os 12.968 votos de 2022 não foram um fenômeno isolado e que sua expansão pelos outros 74 municípios avançou.

Marcos precisa provar algo que nunca precisou fazer numa eleição municipal: ser competitivo fora de São Cristóvão.

Gedalva precisa provar que conseguiu reduzir sua dependência eleitoral da Cidade Mãe.

Diego precisa demonstrar que parte dos 20.802 votos conquistados em 2024 pode ser transferida aos candidatos apoiados por seu grupo.

Júlio precisa mostrar que os 25.872 votos de sua eleição não eram apenas uma fotografia de 2024, mas representam uma base política que continua organizada.

São cinco testes diferentes ocorrendo simultaneamente.

O que mudou desde o capítulo anterior

Nas buscas realizadas até a manhã desta sexta-feira, 11 de setembro, não apareceu fato novo local de grande magnitude capaz de alterar o desenho central apresentado no primeiro capítulo.

Mas existe uma mudança no ambiente eleitoral estadual que merece acompanhamento.

A situação jurídica da Federação PSOL-Rede continua em disputa depois de o TRE-SE indeferir seu registro no estado; a federação recorreu, e candidatos vinculados a ela permanecem em situação de recurso. (UOL Notícias)

Isso pode afetar candidaturas sergipanas ligadas à federação e, indiretamente, a composição das disputas proporcionais. Não altera neste momento o eixo principal Marcos–Gedalva–Paulo analisado nesta série, mas é uma variável que O Arroto continuará acompanhando.

Há ainda uma data importante chegando: 13 de setembro termina o prazo para envio da prestação parcial das contas de campanha à Justiça Eleitoral. Esses dados permitirão comparar quanto cada candidatura recebeu, de onde vieram os recursos e quanto já foi gasto. (Justiça Eleitoral)

Esse material poderá acrescentar uma nova dimensão ao Jogo do Poder: voto, estrutura política e dinheiro de campanha.

Dez anos depois, São Cristóvão volta a uma eleição aberta

Em 2016, ninguém possuía maioria política consolidada.

Em 2020, Marcos construiu essa maioria.

Em 2022, o grupo mostrou capacidade de eleger Paulo Júnior.

Em 2024, conseguiu fazer Júlio sucessor.

Mas 2026 apresenta uma configuração inédita.

Marcos deixou de disputar uma eleição municipal e tenta chegar a Brasília.

Gedalva deixou de ser aliada e concorre diretamente no mesmo cargo.

Paulo tenta preservar o mandato estadual.

Diego atua como liderança de oposição sem estar pessoalmente na urna.

E Júlio precisa administrar a Prefeitura enquanto o grupo do qual faz parte enfrenta seu primeiro grande teste eleitoral desde a ruptura com a vice.

A história dos últimos dez anos mostra que nenhum mapa político de São Cristóvão é permanente.

Os números que pareciam pequenos em 2016 se transformaram em hegemonia quatro anos depois.

Uma vereança de 1.426 votos em 2020 se transformou numa candidatura a prefeito de 20.802 votos em 2024.

Uma candidatura de oposição de pouco mais de 5 mil votos em 2016 chegou a 12 mil para prefeita e 7,5 mil para federal.

E uma cidade que em 2018 distribuía seus votos para deputado estadual entre dezenas de nomes concentrou quase 13 mil votos num único candidato quatro anos depois.

É por isso que olhar apenas pesquisas de intenção de voto não basta.

São Cristóvão possui uma história eleitoral — e essa história ajuda a explicar o que poderá acontecer em 4 de outubro.

No próximo capítulo — “De Marcos Santana a Júlio Nascimento: como o atual grupo chegou ao controle da Prefeitura” — O Arroto vai reconstruir a engrenagem política formada entre 2016 e 2024: alianças, crescimento eleitoral, Paulo Júnior, a entrada de Gedalva na chapa, a escolha de Júlio e a capacidade de Marcos de transferir poder sem estar na urna.

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