Marcos chegou à Prefeitura em 2016 com apenas 30,77% dos votos, quase dobrou sua votação quatro anos depois, colocou Paulo Júnior na vice, ajudou a levá-lo à Assembleia e, impedido de disputar um terceiro mandato consecutivo, viu Júlio Nascimento vencer usando até seu nome na urna. Em 2026, porém, a engrenagem enfrenta um teste diferente: transformar domínio municipal em força estadual — sem Marcos comandando a Prefeitura.A fotografia de 2016 dificilmente permitiria prever o que aconteceria nos oito anos seguintes.
Naquele ano, Marcos Santana venceu uma eleição extremamente fragmentada em São Cristóvão. Foram 11.968 votos, 30,77% dos válidos. Lauro Rocha ficou com 6.985; Betão do Povo, 6.552; e Gedalva Umbaúba, 5.162. Havia oito candidatos à Prefeitura. (SEnotícias)
Marcos, portanto, não chegou ao poder com maioria eleitoral.
Ele a construiu depois.
Quatro anos mais tarde, recebeu 22.248 votos e 53,62% dos válidos. A votação cresceu 10.280 votos — cerca de 86% — e transformou uma vitória decorrente também da pulverização de 2016 numa reeleição majoritária. (UOL Notícias)
Mas o aspecto mais importante daquele pleito talvez não estivesse apenas no número de Marcos.
Estava na composição da chapa.
O vice era Paulo Júnior.
E ali começava a formação de uma engrenagem que, poucos anos depois, permitiria ao grupo ocupar simultaneamente espaços no Executivo municipal e na Assembleia Legislativa.
Paulo não apareceu em 2022
A eleição de Paulo para deputado estadual costuma ser lembrada pelos 27.947 votos conquistados em 2022, dos quais 12.968 vieram de São Cristóvão. (Lagarto Notícias)
Mas sua construção política é anterior.
Paulo havia exercido dois mandatos de vereador, presidido a Câmara Municipal, passado por secretarias municipais e sido eleito vice-prefeito na chapa de Marcos em 2020. (SEnotícias)
Isso é relevante porque ajuda a entender uma característica do grupo formado naquele período: as candidaturas não surgiram isoladamente às vésperas da eleição.
Paulo ocupou espaços municipais antes de disputar uma eleição estadual.
E sua eleição para a Alese resolveu uma deficiência antiga da política local. Ao ser diplomado em 2022, ele destacou que São Cristóvão estava havia 16 anos sem representação própria na Assembleia. (Lagarto Notícias)
Na prática, o grupo passou a operar em duas frentes:
Marcos na Prefeitura.
Paulo na Assembleia.
Essa relação produziu resultados institucionais verificáveis. Em 2024, por exemplo, três emendas de Paulo, somando mais de R$ 700 mil, foram contratualizadas para intervenções como a requalificação de praças em Rita Cacete e Eduardo Gomes e pavimentação de ruas. (São Cristóvão)
Mais recentemente, equipamentos para a rede de saúde municipal também foram adquiridos com recursos de emenda do parlamentar. (São Cristóvão)
Um levantamento publicado em agosto aponta R$ 14,02 milhões em emendas pagas durante três anos de mandato, sendo R$ 7,135 milhões destinados a São Cristóvão por diferentes vias. O dado é baseado nas informações de execução das emendas e merece acompanhamento contínuo para separar valores destinados, empenhados, pagos e efetivamente convertidos em entregas. (93 Notícias)
Aqui aparece uma primeira explicação para a longevidade política do grupo:
mandato passou a alimentar mandato.
2024 apresentou um problema novo: Marcos não poderia concorrer
Depois de dois mandatos consecutivos, Marcos precisava deixar a Prefeitura.
Era o primeiro grande teste de transferência de poder.
O escolhido foi Júlio Nascimento.
Júlio não era um nome estranho à administração. Engenheiro civil, havia comandado a Secretaria de Infraestrutura na gestão de Marcos. (A8 Sergipe)
Mas a estratégia eleitoral foi além da simples indicação de um secretário.
O vínculo com o prefeito tornou-se parte explícita da identidade da candidatura.
Na urna, o nome utilizado foi:
“Júlio de Marcos Santana”.
A própria ficha eleitoral de 2024 registra essa denominação. (Folha de S.Paulo)
Politicamente, é difícil encontrar símbolo mais evidente de uma eleição de continuidade.
Marcos não estava candidato.
Mas estava literalmente no nome do candidato.
A transferência funcionou
Júlio venceu com 25.872 votos — 53,74% dos válidos.
Diego Prado recebeu 20.802 votos, ou 43,21%. (Folha de S.Paulo)
Existe um número especialmente significativo nessa comparação.
Marcos havia conquistado 22.248 votos em sua própria reeleição.
Júlio recebeu 3.624 votos a mais que o padrinho político quatro anos depois.
Isso não permite afirmar que Marcos “transferiu” individualmente 25.872 votos. Eleições não funcionam assim. Júlio possuía candidatura própria, a chapa incluía Gedalva, havia uma ampla coligação e o contexto de 2024 era diferente do de 2020.
Mas permite afirmar algo muito mais sólido:
o eleitorado aceitou a continuidade administrativa apresentada pelo grupo.
A sucessão funcionou.
E funcionou mantendo praticamente o mesmo percentual eleitoral: Marcos teve 53,62% em 2020; Júlio, 53,74% em 2024. (UOL Notícias)
A diferença é de apenas 0,12 ponto percentual.
Esse talvez seja o número mais impressionante deste capítulo.
A continuidade não terminou na eleição
Depois da posse, Júlio também apresentou sua administração publicamente como continuidade de um ciclo de desenvolvimento.
Nos primeiros 100 dias, a Prefeitura destacou ações em educação, infraestrutura, emprego, turismo e economia dentro desse compromisso de continuidade. (São Cristóvão)
Em 2026, a articulação entre Prefeitura, mandato estadual e Governo do Estado continua visível.
Em abril, por exemplo, Júlio e Paulo Júnior se reuniram com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura para discutir pavimentação, praças, quadras e andamento de obras. (São Cristóvão)
Em março, a Prefeitura também discutiu com o DER intervenções rodoviárias; naquele momento havia R$ 30,7 milhões em obras autorizadas, incluindo a reestruturação de trecho da Rodovia João Bebe Água e outras intervenções de mobilidade. (São Cristóvão)
Isso demonstra uma segunda característica da engrenagem:
o grupo não depende exclusivamente da Prefeitura.
Existe interlocução municipal, estadual e parlamentar.
E é justamente essa estrutura que Marcos tenta agora ampliar para Brasília.
2026 é muito mais difícil que 2024
Em 2024, a missão era convencer os eleitores de São Cristóvão a manter o mesmo projeto municipal.
Em 2026, Marcos precisa convencer Sergipe.
Sua candidatura a deputado federal pelo PSB está deferida, com o número 4000. (Tribuna do Paraná)
A diferença é brutal.
Na eleição municipal, todos os votos estavam dentro de um único território onde Marcos havia governado durante oito anos.
Na eleição federal, São Cristóvão é apenas uma parte do eleitorado estadual.
Por isso, a mesma máquina que funcionou perfeitamente na sucessão municipal pode ser insuficiente numa disputa federal.
Marcos precisa transformar capital político local em alianças municipais espalhadas pelo estado.
Precisa conquistar votos onde nunca administrou.
E precisa disputar espaço dentro de uma eleição proporcional na qual o desempenho partidário também interfere na distribuição das vagas.
É provavelmente o maior teste eleitoral de sua carreira.
O grupo tem uma vantagem: já sabe concentrar votos
Existe, entretanto, uma experiência importante.
Em 2022, São Cristóvão concentrou 12.968 votos em Paulo Júnior para deputado estadual. (Lagarto Notícias)
Se a engrenagem política conseguir produzir novamente uma forte concentração municipal — agora simultaneamente em Paulo para estadual e Marcos para federal — os dois não necessariamente competem entre si.
O eleitor pode votar:
Paulo Júnior para deputado estadual.
Marcos Santana para deputado federal.
Essa complementaridade permite ao grupo trabalhar com uma espécie de chapa política municipal informal.
E isso explica por que os dois aparecem juntos em mobilizações. Em agosto, por exemplo, participaram de encontro com apoiadores no povoado Cabrita voltado à organização política e discussão de propostas. (Política de Fato)
O desafio será medir quanto dessa estrutura realmente vira voto.
Existe ainda uma peça fundamental: Fábio Mitidieri
A engrenagem municipal não opera isoladamente.
O grupo de Marcos e Paulo está inserido no campo político do governador Fábio Mitidieri.
Isso importa porque muitas das grandes intervenções em São Cristóvão dependem de articulação estadual.
Somente no eixo da Rodovia João Bebe Água, obras anunciadas em 2026 somavam dezenas de milhões de reais. (São Cristóvão)
Para o eleitor, portanto, a campanha pode tentar apresentar uma narrativa de continuidade vertical:
Prefeitura → Assembleia → Governo do Estado → Câmara Federal.
Se Marcos conquistar uma cadeira em Brasília e Paulo permanecer na Assembleia, o grupo poderá argumentar que São Cristóvão terá canais políticos nos três níveis.
Essa é provavelmente a maior promessa implícita da candidatura.
Mas a máquina perdeu uma peça importante
A engrenagem que venceu em 2024 já não é exatamente a mesma.
Gedalva Umbaúba estava na chapa de Júlio.
Ela aparece oficialmente como vice na candidatura registrada em 2024 e tomou posse em janeiro de 2025. (Folha de S.Paulo)
Hoje, entretanto, Gedalva está politicamente afastada do grupo e disputa justamente uma vaga de deputada federal.
Portanto, parte da coalizão que produziu os 25.872 votos de 2024 está agora dividida.
Esse detalhe impede qualquer leitura simplista do tipo:
“Júlio teve 25 mil votos, então Marcos parte de 25 mil.”
Não parte.
A eleição de 2024 reuniu forças que em 2026 estão em campos diferentes.
A urna mostrará quanto daquele eleitorado pertencia à continuidade administrativa, quanto estava associado a Marcos, quanto vinha de Gedalva e quanto resultava simplesmente da preferência por Júlio diante dos adversários disponíveis.
Há outra ausência: Diego deixou de ser aliado
Existe uma imagem de 2021 que hoje parece pertencer a outra época.
Na posse do segundo mandato de Marcos, Paulo Júnior era o vice-prefeito e Diego Prado presidia a Câmara Municipal.
Na abertura dos trabalhos legislativos daquele ano, Diego reconhecia publicamente avanços da gestão e defendia que eles continuassem chegando à população. (São Cristóvão)
Três anos depois, Diego seria o principal adversário do candidato apoiado por Marcos.
Recebeu 20.802 votos para prefeito. (Folha de S.Paulo)
Isso mostra que a história do grupo governista não é apenas uma história de agregação.
É também uma história de rupturas.
Primeiro Diego.
Depois Gedalva.
E cada ruptura produziu uma nova força eleitoral fora do núcleo original.
Esse é o paradoxo de Marcos Santana
Quanto mais seu grupo cresceu, mais lideranças importantes passaram por dentro dele.
E algumas depois saíram.
Paulo permaneceu.
Júlio permaneceu.
Diego tornou-se adversário.
Gedalva tornou-se adversária.
Portanto, a eleição de 2026 responderá uma pergunta muito mais sofisticada do que simplesmente “Marcos é forte?”.
A pergunta correta é:
quanto da força construída entre 2016 e 2024 pertence ao projeto político liderado por Marcos e quanto pertencia às lideranças que participaram dele?
Essa resposta somente a urna poderá fornecer.
O que mudou desde o capítulo anterior
Nas verificações feitas para este capítulo, não surgiu até a manhã deste sábado, 12 de setembro, uma alteração de registro ou fato político local suficientemente grande para mudar o núcleo do cenário apresentado ontem.
A candidatura de Marcos continua registrada como deferida pela Justiça Eleitoral. Fontes que reproduzem os dados do TSE indicam a situação regular e o número 4000. (Tribuna do Paraná)
Há, entretanto, um dado financeiro que começa a ganhar importância conforme a campanha entra na reta decisiva. Dados eleitorais abertos compilados a partir do TSE registram R$ 840 mil em receitas de campanha declaradas por Marcos em agosto, além das despesas então informadas. Como a prestação parcial das campanhas avança neste período, esses valores podem mudar e deverão ser comparados com os demais candidatos quando a base estiver consolidada. (MeuVoto)
A partir daqui, dinheiro, estrutura territorial e apoios municipais começarão a ser indicadores tão importantes quanto presença em eventos.
A máquina agora precisa provar que consegue sair de casa
Entre 2016 e 2024, a trajetória é objetiva:
11.968 votos: Marcos chega à Prefeitura.
22.248 votos: Marcos é reeleito.
27.947 votos estaduais: Paulo chega à Assembleia.
25.872 votos: Júlio mantém a Prefeitura no mesmo grupo.
Poucos agrupamentos políticos municipais conseguem apresentar uma sequência eleitoral tão consistente.
Mas existe uma diferença essencial.
Todas essas vitórias tiveram São Cristóvão como centro da estratégia.
Agora, Marcos tenta algo novo.
São Cristóvão pode fornecer a largada.
Mas não pode, sozinho, fornecer a chegada.
Para conquistar uma das oito cadeiras sergipanas na Câmara dos Deputados, a candidatura precisará encontrar votos em outras cidades e dependerá também do desempenho do PSB no sistema proporcional.
É aí que descobriremos se Marcos Santana construiu apenas uma poderosa máquina municipal ou se conseguiu transformá-la numa estrutura política capaz de atravessar as fronteiras da Cidade Mãe.
E essa diferença pode definir não somente seu futuro político.
Pode definir também o equilíbrio de forças de São Cristóvão em 2028.
No próximo capítulo — “Os 20.802 votos de Diego Prado desapareceram?” — O Arroto vai investigar o outro lado dessa história: como um vereador que estava na base de Marcos em 2021 tornou-se o principal adversário do grupo em 2024, onde está hoje o eleitor que votou em Diego e por que a votação dos candidatos apoiados por ele em 2026 será o primeiro grande teste de sua capacidade de transferência de votos.

