Depois de vencer duas eleições para prefeito e ajudar a eleger o sucessor, Marcos Santana enfrenta agora a disputa mais difícil de sua trajetória. O ex-prefeito chega competitivo, mas a matemática federal é implacável: São Cristóvão representa apenas 3,56% do eleitorado sergipano, Marcos divide o PSB com outros nomes fortes e seu próprio histórico mostra que transformar liderança municipal em votação estadual nunca foi automático.
Durante oito anos, Marcos Santana disputou eleições em um território que conhecia profundamente.
Em 2016, recebeu 11.968 votos e chegou à Prefeitura de São Cristóvão. Em 2020, praticamente dobrou sua votação e foi reeleito com 22.248 votos e 53,62% dos válidos. Quatro anos depois, já impedido de buscar um terceiro mandato consecutivo, viu Júlio Nascimento — que adotou inclusive o nome eleitoral “Júlio de Marcos Santana” — vencer com 25.872 votos.
Esses números ajudam a explicar por que Marcos chegou a 2026 cercado por expectativa.
Mas também podem produzir uma ilusão.
Uma eleição federal não é uma eleição municipal ampliada.
E essa talvez seja a principal informação que o eleitor de São Cristóvão precisa compreender para avaliar realisticamente sua candidatura.
O território mudou completamente
São Cristóvão possui hoje 62.018 eleitores, quinto maior colégio eleitoral de Sergipe. O estado inteiro possui 1.740.240 pessoas aptas a votar. Isso significa que o município representa aproximadamente 3,56% do eleitorado sergipano.
Esse tamanho dá à cidade peso suficiente para formar uma excelente base.
Mas não para decidir sozinha uma vaga federal.
Mesmo que Marcos consiga uma votação excepcional dentro do município, ainda precisará buscar milhares de votos em Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, Lagarto, Itabaiana, Estância, Itaporanga, interior e demais regiões.
A eleição que Marcos precisa vencer começa em São Cristóvão.
Mas termina muito longe dela.
E essa não é a primeira vez que Marcos tenta uma eleição estadualizada
Existe um dado pouco lembrado de sua trajetória que ajuda muito a entender o desafio atual.
Em 2014, Marcos Santana disputou uma vaga de deputado estadual.
Recebeu 4.734 votos em todo Sergipe e não foi eleito.
Desse total, 3.576 votos vieram de São Cristóvão.
Isso significa que aproximadamente 75,5% da votação de Marcos naquela eleição estava concentrada em seu próprio município.
É verdade que estamos falando de outra época.
Marcos ainda não havia sido prefeito. Não possuía oito anos de gestão municipal, não havia ajudado a eleger Paulo Júnior deputado estadual, não havia produzido um sucessor vitorioso e seu nível de exposição estadual era incomparavelmente menor.
Mas o precedente revela o problema estrutural.
Em 2014, Marcos tinha voto em São Cristóvão.
O que não tinha era voto suficiente em Sergipe.
Doze anos depois, essa é novamente a pergunta fundamental.
Quanto Marcos Santana conseguiu crescer fora de casa?
Os 25.872 votos de Júlio não pertencem a Marcos
Há outra conta perigosa circulando naturalmente em torno dessa eleição.
Júlio Nascimento recebeu 25.872 votos em 2024.
Marcos foi seu principal padrinho político.
Logo, poderia parecer razoável concluir que Marcos começaria sua eleição federal próximo dessa quantidade.
A conclusão não se sustenta.
Uma eleição municipal reúne candidato, vice, vereadores, partidos, avaliação da administração, rejeição aos adversários e centenas de relações políticas locais.
Além disso, a própria coalizão que elegeu Júlio não está mais intacta.
Gedalva Umbaúba era a candidata a vice daquela chapa e hoje está rompida com o grupo, disputando exatamente o mesmo cargo federal que Marcos.
Portanto, parte do eleitorado que participou dos 25.872 votos de 2024 hoje encontrará Marcos e Gedalva em lados opostos da mesma disputa.
A urna vai separar aquilo que 2024 misturou.
O precedente de Fábio Reis recomenda cautela
Existe ainda um episódio particularmente esclarecedor.
Nas eleições de 2022, o agrupamento liderado por Marcos declarou apoio a Fábio Reis para deputado federal. O próprio Paulo Júnior confirmou, ainda na fase de construção da candidatura, que seu grupo e o prefeito apoiariam Fábio; no lançamento de Paulo, Fábio foi apresentado como o candidato federal do agrupamento.
Fábio terminou aquela eleição eleito deputado federal com 75.848 votos em Sergipe.
Mas, dentro de São Cristóvão, recebeu 2.495 votos.
Esse número precisa ser interpretado com muito cuidado.
Não é correto dizer que Marcos “transferiu apenas 2.495 votos”. Fábio possuía campanha própria, outros apoiadores e uma relação individual com o eleitor.
Mas o episódio demonstra uma regra importante:
apoio político não produz transferência automática de eleitorado.
Na mesma eleição em que Fábio recebeu 2.495 votos dentro de São Cristóvão, Paulo Júnior — candidato estadual diretamente ligado à cidade — conseguiu 12.968.
São disputas diferentes.
São candidatos diferentes.
E o comportamento do eleitor também é diferente.
O precedente serve justamente para evitar exageros na expectativa sobre qualquer transferência de votos em 2026.
Agora Marcos não está transferindo: está pedindo o voto para si
É aqui, entretanto, que 2026 muda completamente a equação.
Fábio Reis era um aliado.
Marcos Santana estará pessoalmente na urna.
Isso altera tudo.
O eleitor não precisará converter a confiança em Marcos para um terceiro nome.
Poderá votar diretamente no ex-prefeito.
Sua administração entre 2017 e 2024, as obras, os conflitos, os acertos, os erros e a lembrança deixada pelos oito anos de governo entram diretamente na decisão.
Portanto, seria igualmente equivocado usar os 2.495 votos de Fábio como teto para Marcos.
A comparação correta será outra:
quanto do capital político que Marcos acumulou durante oito anos na Prefeitura consegue sobreviver fora de uma eleição municipal?
Essa resposta ainda não existe.
A pesquisa mais recente oferece um sinal — mas não uma sentença
No levantamento espontâneo do Instituto França realizado entre 1º e 3 de setembro, Marcos Santana apareceu com 0,84% das citações para deputado federal.
Yandra Moura registrou 3,75%; Ícaro de Valmir, 2,56%; Fábio Reis, 2,29%; e Cláudio Mitidieri, 1,57%.
Nada menos que 65,01% dos entrevistados não souberam ou não responderam em quem votariam para deputado federal. Outros 7,02% indicaram branco, nulo ou nenhum. Foram entrevistados 1.300 eleitores, e a pesquisa está registrada no TSE sob o número SE-05743/2026.
O dado precisa ser tratado com seriedade.
Hoje, nessa fotografia, Marcos não aparece numericamente entre os oito primeiros nomes citados.
Mas seria igualmente errado transformar essa colocação numa previsão de quem ocupará as oito cadeiras.
Pesquisa espontânea para deputado mede sobretudo lembrança de nome num universo extremamente pulverizado.
Com 65% dos entrevistados ainda sem citar candidato, existe um enorme espaço eleitoral em disputa.
O número mais importante daquela pesquisa talvez não seja 0,84%.
É 65,01%.
Marcos cresceu em relação ao início do ano
Existe também uma trajetória nas pesquisas.
Em março, o Instituto França registrava Marcos com 0,39% na espontânea.
Em junho, levantamento do CTAS chegou a registrar 1,2%.
Em pesquisa CTAS realizada entre 21 e 24 de julho, Marcos apareceu com 0,9%.
Agora, no França de setembro, marcou 0,84%.
Como são institutos, amostras e períodos diferentes, não se deve construir uma linha de tendência rígida comparando décimos de ponto.
Mas há algo que pode ser afirmado:
Marcos conseguiu entrar no grupo de nomes espontaneamente lembrados numa eleição estadual.
O próximo passo é transformar lembrança em voto.
Há um problema adicional: Cláudio Mitidieri está no mesmo partido
A dificuldade de Marcos não está somente fora do PSB.
Está também dentro dele.
Marcos concorre pelo PSB, número 4000, com candidatura deferida.
Cláudio Mitidieri também disputa deputado federal pelo PSB, número 4040, e aparece com candidatura deferida.
Isso cria uma relação curiosa.
Os dois são aliados quando somam votos para o partido.
E adversários quando chega a hora de definir quem ficará com uma eventual cadeira conquistada pelo PSB.
Nas eleições proporcionais, primeiro importa o desempenho coletivo da legenda.
Depois importa a colocação individual dentro dela.
Portanto, Marcos precisa disputar votos com candidatos de outros partidos e, simultaneamente, terminar numa posição competitiva entre os próprios candidatos do PSB.
O Instituto França de setembro mostrou Cláudio com 1,57% e Marcos com 0,84% na espontânea.
Isso não determina o resultado final.
Mas mostra que existe uma competição interna real.
São oito vagas — e 2022 mostra o tamanho da disputa
Sergipe elege apenas oito deputados federais.
Em 2022, os oito eleitos tiveram votações individuais que foram de 131.471 votos, no caso de Yandra Moura, até 31.597, no caso de André David. No meio estavam Ícaro de Valmir com 75.912, Fábio Reis com 75.848, Gustinho Ribeiro com 71.831, Rodrigo Valadares com 49.696, Thiago de Joaldo com 45.698 e Delegada Katarina com 38.135.
Mas esses valores não formam uma nota de corte.
Deputado federal é eleito pelo sistema proporcional.
O resultado depende da quantidade total de votos válidos e, principalmente, da votação obtida pelo partido ou federação de cada candidato.
A lição de 2022 é outra:
para chegar a Brasília, normalmente será necessário construir dezenas de milhares de votos — próprios ou apoiados por uma legenda suficientemente forte.
É justamente essa escala que Marcos nunca enfrentou numa eleição vitoriosa.
Até hoje, as vitórias de Marcos aconteceram dentro de São Cristóvão
Sua trajetória eleitoral é bastante reveladora.
Em 2014, disputou uma eleição estadual e perdeu com 4.734 votos.
Em 2016, restringiu a disputa a São Cristóvão e venceu com 11.968.
Em 2020, novamente concorrendo somente no município, venceu com 22.248.
Agora volta para uma eleição estadualizada.
A pergunta não é se Marcos sabe vencer eleição.
Já demonstrou que sabe.
A pergunta é:
ele consegue vencer uma eleição fora do território onde construiu sua carreira?
Essa é uma prova completamente diferente.
A estrutura de campanha mostra que o PSB fez uma aposta relevante
Os dados mais recentes da prestação de contas consultada nesta quarta-feira, 16 de setembro, mostram R$ 850 mil arrecadados pela candidatura de Marcos e aproximadamente R$ 845 mil em despesas contratadas.
O limite legal de gastos para sua campanha é de R$ 3,176 milhões.
Há uma pequena atualização em relação aos dados utilizados anteriormente nesta série: a arrecadação declarada passou de cerca de R$ 840 mil para R$ 850 mil.
Dinheiro de campanha não significa voto.
Mas revela uma coisa:
a candidatura possui estrutura para trabalhar.
O desafio agora é saber onde essa estrutura está sendo transformada em presença territorial.
É fora de São Cristóvão que a campanha deve ser observada
Daqui até 4 de outubro, talvez seja menos útil contar quantas agendas Marcos realiza dentro da Cidade Mãe.
Todo mundo já sabe que São Cristóvão é sua principal base.
O indicador realmente importante é outro:
em quantos municípios Marcos conseguiu construir lideranças próprias?
Quem está com ele em Lagarto?
Quem está com ele em Itabaiana?
Quem está com ele em Estância?
Quem está com ele em Socorro?
Quem está com ele em Aracaju?
Quem está com ele no Baixo São Francisco, Sul sergipano, Agreste e Sertão?
Uma candidatura federal é feita pela soma dessas pequenas estruturas.
Não basta ter um grande território.
É preciso ter muitos territórios.
O cenário estadual oferece uma vantagem política
Existe, entretanto, um ambiente que pode ajudar.
Marcos está no mesmo grande campo estadual que apoia a reeleição do governador Fábio Mitidieri.
A pesquisa do Instituto França realizada entre 8 e 10 de setembro, divulgada nos últimos dias, colocou Fábio com 42,41% no cenário estimulado, contra 27,07% de Valmir de Francisquinho. O levantamento ouviu 1.300 eleitores, tem margem de erro de 2,7 pontos e registro SE-08275/2026.
Marcos e Paulo Júnior já participaram de mobilizações com o governador em São Cristóvão.
Uma candidatura ligada a um palanque estadual competitivo pode ganhar agendas conjuntas, visibilidade e conexões municipais.
Mas há novamente um limite.
voto para governador não se transfere automaticamente para deputado federal.
A campanha de Marcos ainda precisa construir seu próprio caminho.
O que São Cristóvão pode ganhar se Marcos chegar a Brasília
Para a cidade, uma eventual eleição teria importância objetiva.
Marcos passou oito anos administrando o município.
Conhece, portanto, as demandas locais por dentro da estrutura pública.
Um deputado federal pode apresentar emendas, participar das discussões do Orçamento da União, articular projetos junto a ministérios e órgãos federais, fiscalizar o Executivo e participar da elaboração das leis nacionais.
São Cristóvão já experimentou os efeitos dessa articulação mesmo sem possuir deputado federal próprio.
Durante a gestão de Marcos, a parceria com Fábio Reis ajudou a trazer equipamentos e recursos ao município. Em janeiro de 2022, por exemplo, a Prefeitura recebeu caminhão-pipa por articulação do deputado junto à Codevasf; Marcos reconheceu publicamente a parceria.
Em 2024, Fábio participou ainda da entrega da requalificação da Praça Nossa Senhora de Fátima, executada com R$ 403 mil de emenda parlamentar.
Se Marcos for eleito, a relação se inverteria.
Quem antes precisava procurar um deputado federal para apresentar demandas passaria a ocupar a própria cadeira.
Esse é provavelmente o argumento institucional mais forte de sua candidatura.
Mas existe uma condição:
o mandato precisaria continuar olhando para São Cristóvão sem se transformar num mandato restrito a São Cristóvão.
Porque para se reeleger quatro anos depois, um deputado federal precisa representar Sergipe.
O que mudou desde o capítulo anterior
Até a manhã desta quarta-feira, 16 de setembro, a candidatura de Marcos continua deferida, segundo a atualização mais recente da base eleitoral consultada.
A prestação de contas apresenta agora R$ 850 mil arrecadados, pequena atualização sobre o valor acompanhado anteriormente.
Nas fontes consultadas, não apareceu uma nova pesquisa específica para deputado federal posterior ao levantamento do Instituto França coletado de 1º a 3 de setembro. Portanto, o retrato mais recente disponível para esse cargo continua mostrando Marcos com 0,84% numa disputa em que 65,01% ainda não citavam candidato.
A principal novidade política estadual é o novo levantamento para governador, coletado entre 8 e 10 de setembro, mostrando Fábio Mitidieri à frente — cenário que favorece o palanque estadual do qual Marcos participa, mas não resolve sua própria disputa proporcional.
Esta é, de fato, a eleição mais difícil de Marcos
Em 2016, ele precisava ser o melhor entre os candidatos de São Cristóvão.
Em 2020, precisava convencer a cidade a mantê-lo.
Em 2024, precisava transferir parte de sua força para um sucessor.
Agora precisa fazer três coisas ao mesmo tempo:
ser muito forte dentro de São Cristóvão, crescer em todo Sergipe e terminar bem posicionado dentro do próprio PSB.
É outra dimensão de eleição.
Sua principal vantagem é evidente: poucos candidatos estreantes na disputa federal possuem uma base municipal tão organizada, dois mandatos de prefeito e um sucessor governando.
Sua maior fraqueza também está evidente:
sua carreira eleitoral foi construída quase integralmente dentro de São Cristóvão.
A eleição de 4 de outubro revelará se oito anos de Prefeitura transformaram Marcos Santana numa liderança estadual — ou se produziram uma liderança municipal extremamente forte, mas ainda territorialmente limitada.
Essa diferença vale uma cadeira em Brasília.
E pode valer muito mais depois.
Se Marcos for eleito, seu grupo poderá chegar a 2027 com Prefeitura, representação na Assembleia caso Paulo Júnior seja reeleito e representação própria na Câmara dos Deputados.
Se não for, São Cristóvão terá uma resposta igualmente importante:
até onde chega, de fato, a força política construída por Marcos Santana?
No próximo capítulo — “Quantos votos Marcos Santana precisa buscar fora de São Cristóvão?” — O Arroto vai colocar a candidatura na calculadora eleitoral: vamos construir cenários realistas de 10 mil, 15 mil e 20 mil votos dentro da cidade, comparar com as últimas eleições federais de Sergipe e mostrar quanto precisaria vir dos outros 74 municípios para Marcos entrar efetivamente na zona de disputa por uma cadeira.

