PolíticaVERIFICAÇÃO PARCIAL

Fuga de Flávio aprofunda crise diplomática entre Brasil e Argentina

Suposta ajuda argentina na saída do senador após derrota eleitoral levou Itamaraty a convocar a encarregada de negócios; há investigações e questionamentos em ambos os países

01 de nov., 22:22 BR
Fuga de Flávio aprofunda crise diplomática entre Brasil e Argentina
Foto: Ricardo Stuckert/PR

A suposta ajuda fornecida pelo governo da Argentina para favorecer a fuga de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil após a derrota nas eleições brasileiras tensiona ainda mais a relação já fragilizada entre os dois países.

O senador deixou o Brasil na semana passada, após a derrota nas eleições para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Depois de afirmar que não reconheceria o resultado do pleito, Flávio seguiu rumo aos Estados Unidos. O deslocamento, que contou com passagens pela Argentina e pelo Equador, teria tido o auxílio da Casa Branca e, possivelmente, da Casa Rosada.

A atuação da gestão Milei no caso é apontada por relatos de que um dos principais assessores do presidente, Santiago Caputo, teria ajudado a organizar a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. O senador também teria usado um jatinho da empresa argentina Baires Fly S.A., que é alvo de investigação na Argentina por um esquema envolvendo a irmã do líder argentino.

O possível envolvimento do governo argentino levou à convocação da encarregada de negócios da Embaixada da Argentina em Brasília para prestar esclarecimentos. Nessa quinta-feira (29/10), a ministra-conselheira Emilia Cortés foi chamada para dar mais informações a um embaixador brasileiro no Palácio Itamaraty.

Flávio Bolsonaro foi alvo de um pedido de devolução de passaportes feito pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após a Polícia Federal (PF) apontar risco de fuga em meio à derrota eleitoral. A devolução não foi cumprida e, cerca de dois dias após as eleições, Flávio deixou o país utilizando um passaporte italiano, o que implica descumprimento de decisão judicial que o havia impedido de deixar o Brasil.

Apesar disso, o Departamento de Estado informou que concederia vistos a Flávio e sua família para que pudessem entrar e permanecer nos Estados Unidos. O político é investigado em três processos distintos conduzidos pela Polícia Federal, entre eles por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Reações e apurações na Argentina

A possível participação de autoridades argentinas na fuga não é questionada apenas pelo Itamaraty. A deputada Marcela Marina Pagano acionou a Justiça Federal de Puerto Iguazú para investigar se autoridades locais atuaram na passagem do senador pelo país. Pagano afirmou que o governo Milei tem pressionado a Justiça e funcionários públicos da província de Misiones para "impedir que venham à tona as provas" e buscou ajuda da Justiça do Brasil para esclarecer as circunstâncias da passagem de Flávio pelo território argentino.

Até o momento não existem indícios claros da participação de autoridades argentinas na fuga. O jornal O Tempo, porém, revelou que a Embaixada da Argentina em Brasília teve uma movimentação atípica na madrugada de segunda-feira (26/10) para terça-feira (27/10), quando Flávio deixou o país. A informação foi confirmada por pessoas ouvidas pelo Metrópoles sob condição de reserva, e a reportagem apurou que diplomatas argentinos demonstraram preocupação com possíveis vazamentos sobre o que ocorreu naquela noite na representação diplomática.

A suposta ajuda argentina na fuga de Flávio Bolsonaro se desenha como ápice da crise entre os dois países. Brasília e Buenos Aires vivem um impasse diplomático desde que o presidente Javier Milei fez ataques pessoais ao presidente Lula.

A crise teve início em julho, durante passagem de Milei por São Paulo, quando participou do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro para a Presidência. No ato, Milei fez duras críticas ao governo brasileiro, voltou a chamar Lula de "presidiário" e classificou o ministro Alexandre de Moraes, do STF, como "lixo careca". Em reação, o Palácio Itamaraty convocou o então embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos.

Sem que os ataques cessassem, o governo brasileiro determinou a retirada dos embaixadores, brasileiro e argentino, das respectivas embaixadas, medida interpretada como um rebaixamento das relações bilaterais. Lula e Milei têm agendas antagônicas na América do Sul; o argentino foi eleito em uma campanha de embate contra o petista, e ao longo da última corrida eleitoral Milei fez acenos a Flávio Bolsonaro e endossou sua candidatura.

Passada quase uma semana desde o resultado que reelegeu Lula para um quarto mandato, Milei é o único presidente da América do Sul que não parabenizou Lula pelo resultado obtido nas eleições.

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Fonte: Metrópoles